No dia 15 de abril de 1998, cerca de 1000 homens e mulheres de quase todos os países do continente se reuniram para participar de uma Cúpula Popular das Américas, em Santiago do Chile. Tivemos assim a oportunidade de expressar nossa rejeição coletiva à atual agenda "neo-liberal" que promove a liberalização do comércio e dos investimentos, a disregulamentação, a privatização e a economia orientada para o mercado como fórmula para o desenvolvimento. A Cúpula dos Povos das Américas se concentrou no estabelecimento de uma aliança hemisférica social baseada em alternativas concretas e viáveis. Enquanto isso, os presidentes e primeiros-ministros de nossos países participavam de uma Reunião de Cúpula em Santiago, tentando negociar um acordo de livre comércio para as Américas (ALCA). Acredita-se que o ALCA tomará como modelo vários acordos já existentes, como o ANALC, conseguindo assim expandir o neo-liberalismo em todo o continente. Este documento representa nossa determinação de criar uma alternativa ao ALCA baseada nas propostas apresentadas a seguir.
A procura de alternativas resulta de nossa convicção de que o modelo de economia neo-liberal tem sido um desastre para a maioria dos povos do nosso continente.
O neo-liberalismo impõe uma série de regulamentos que controlam não só a economia mas também o aspecto social das nossas sociedades. Portanto, o problema para nós não é o livre comércio versus a proteção ou a integração versus o isolamento. O problema é definir quais são os regulamentos que irão prevalecer e quem irá se beneficiar.
A Reunião de Cúpula dos Povos das Américas, de Santiago, deixou bem claro que existe um movimento crescente de resistência. Este é um dos movimentos populares que permitem aos povos das Américas dizer claramente aos líderes políticos, especuladores financeiros e empresas transnacionais que promovem o neo-liberalismo, que suas agendas são inaceitáveis. Este movimento popular das Américas exige a demonstração de humanismo. A mensagem do movimento é evidente ao afirmar que a alimentação nutritiva, a moradia decente, um ambiente limpo e saudável, a assistência médica e a educação são direitos humanos. O movimento declara que o respeito dos direitos dos trabalhadores, mulheres, povos nativos, negros e "latinos" que vivem nos Estados Unidos e no Canadá deve ser um elemento central de qualquer processo de integração.
Os que apóiam o neo-liberalismo tentam combater, de diversas maneiras, a resistência dos povos das Américas. Nos Estados Unidos, os gigantes empresariais vêm lançando campanhas massivas para "educar" o público sobre os benefícios do livre comércio. Em muitos países, o método de extrema repressão adotado tem sido o uso do Estado-Nação como instrumento de terror contra seus próprio povo, isto é, o retorno ao início de um neo-liberalismo semelhante ao que ocorreu no Chile durante o regime ditatorial e sangrento de Pinochet. Com a desculpa de estar "combatento o tráfico de drogas", diversos grupos contra-revolucionários geralmente apoiados por verbas americanas, treinamento e novos tipos de armamentos, causam uma onda de terror em nosso continente. Além disso, a supressão dos movimentos populares no México e nas Américas Central e do Sul é um meio de limitar as revindicações dos povos destes países. Algumas vezes, a supressão se transforma em terrorismo brutal, como foi o caso do massacre em Acteal, no México, o assassinato de milhares de líderes sindicalistas e populares na Colômbia, nos últimos anos, e o assassinato brutal do Bispo Gerardi, da Guatemala. Apesar do fato de nossos governantes condenarem publicamente estes atos de violência, ficamos na dúvida se eles não sentem um certo alívio porque estes atos abomináveis conseguem silenciar todos aqueles que desafiaram e continuam a desafiar a implementação do neo-liberalismo.
Enquanto as empresas transnacionais, especuladores e seus aliados governamentais continuam agindo para o próprio interesse, estamos nos unindo cada vez mais à maioria da população do nosso continente, através das fronteiras e dos setores, a fim de nos opor a estes interesses particulares. Apesar de que nosso movimento de aliança social encontra-se numa fase inicial, a tarefa urgente que temos pela frente já foi iniciada.
A história nos ensina muitas coisas. Uma de suas lições pode ser encontrada nas palavras do grande libertador afro-americano Frederick Douglass: "Não pode haver progresso sem luta… O poder não abre mão de nada se não houver uma exigência; nunca abriu mão nem nunca abrirá… Basta verificar os casos em que os povos se submeteram pacificamente ao poder para se constatar o grau de injustiça e o mal predominante… Os limites dos tiranos são determinados de acordo com o nível de sofrimento que os oprimidos podem suportar."
A história nos ensina também que nenhuma opressão, por maior que seja, pode impedir a luta dos seres humanos pela declaração e respeito de seus direitos.
A Cúpula dos Povos das Américas não se limitou apenas às negociações dos regulamentos do neo-liberalismo; ela deu início a um diálogo sobre alternativas. Este documento, resultado do diálogo estabelecido, baseia-se no desejo dos povos do nosso continente de viver e crescer como seres humanos dignos. Este desejo de construir uma sociedade mais igualitária e respeituosa em nosso continente transcende as fronteiras nacionais e faz parte de uma longa tradição da história das Américas. Este sonho remonta aos primórdios da luta para o estabelecimento de países independentes e livres no continente americano. Há quase dois séculos, Simón Bolivar, libertador de grande parte da América do Sul do jugo do colonialismo, declarou: "Yo deseo más que otro alguno ver formar en América la más grande nación del mundo, menos por su extensión y riquezas que por su libertad y gloria". ("Desejo, mais do que qualquer um, ver surgir na América a maior nação do mundo, não por sua extensão e riquezas, mas por sua liberdade e glória").
"Alternativas para as Américas" é mais do que uma doutrina econômica. É um meio para alcançar a integração social na qual as idéias, o talento e a grandeza de nossos povos poderão ser compartilhados para o benefício de todos. Este documento de trabalho será modificado e acrescido à medida que exercemos nossos direitos de continuar o debate e a discussão.